Mitologia do Design

Um pouco diferente da mitologia deísta, a mitologia do design alega que certas características do universo e dos seres vivos são mais bem explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não-direcionado como a seleção natural. Ela alega que devido a isto, ou houve uma criação do universo ou uma criação de certas estruturas do universo. Ela também está quase sempre associada a criacionismo.

Introdução

O consenso da comunidade científica é de que a criação inteligente não é ciência, mas na verdade pseudociência. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos já declarou que o "criacionismo, design inteligente e outras alegações de intervenção sobrenatural na origem da vida" não são ciências porque elas não podem ser testadas por métodos científicos. A Associação de Professores de Ciências dos Estados Unidos e a Associação Americana para o Avanço da Ciência a classificaram como pseudociência, e a Sociedade Brasileira de Genética publicou oficialmente que não há qualquer respaldo científico no design inteligente e outras teorias criacionistas, explicando que esta posição é consensual na comunidade científica. Em 20 anos desde que o design inteligente foi formulado, nenhum teste rigoroso que possa identificar os alegados efeitos foi proposto. Nenhum artigo apoiando o design inteligente já foi publicado em periódicos científicos revisados por pares, e nem o design inteligente já foi o sujeito de estudo de qualquer pesquisa ou estudo científico.

Dos conceitos da mitologia do design inteligente podemos citar os seguintes:

• Complexidade irredutível;
• Complexidade especificada;
• Universo afinado;
• Um criador inteligente;

Complexidade irredutível

O bioquímico Michael Behe argumenta que mecanismos biológicos irredutivelmente complexos, incluem o flagelo bacteriano da E.coli, a cascata da coagulação do sangue, o cílio, e o sistema imune apontam para o argumento da complexidade irredutível, que assume que as partes necessárias do sistema sempre foram necessárias e consequentemente não poderiam ter sido adicionadas sequencialmente. Porém, de acordo com a comunidade científica algumas partes que são inicialmente só um pouco vantajosas podem posteriormente se tornar necessárias à medida que outros componentes mudam. A evolução frequentemente procede alternando partes preexistentes ou as removendo do sistema, ao invés de sempre adicioná-las. E isso é algumas vezes chamado de "objeção do andaime", criando uma analogia com andaimes, que podem suportar um prédio "irredutivelmente complexo" até que o mesmo seja completado e possa sustentar a si mesmo. Behe admitiu ter usado uma "prosa irregular" e que seu "argumento contra o Darwinismo não se sustenta à prova lógica".

A complexidade irredutível se mostra como uma estratégia da rendição intelectual completa. Podemos aqui propor a redutibilidade dos tais "sistemas irredutiveis", a Nature, uma das mais antigas revistas científicas do mundo publicou um artigo "A Critical Analysis of Intelligent Design in Biochemistry", PHILOSOPHY OF SCIENCE. Niall Shanks e Karl H. Joplin (June 1999), demonstrando que as simulações de computador da evolução demonstraram que é possível que a complexidade irredutível evolua naturalmente. Os precursores de sistemas complexos, quando não são úteis por si mesmos, podem ser úteis para executar outras funções não relacionadas. Biólogos evolucionistas argumentam que a evolução muitas vezes trabalha desta forma cega e atrapalhada, em que a função de uma forma anterior não é necessariamente a mesma função da forma posterior. O termo usado para este processo é "exaptação". O ouvido médio dos mamíferos (derivado de um osso da mandíbula) e o polegar do panda (derivado de um osso do pulso) são considerados exemplos clássicos. Um artigo de 2006 na Nature demonstrou estados intermediários que levaram ao desenvolvimento do ouvido em um peixe do Devoniano. Além disso, pesquisas recentes mostraram que os vírus representam um papel inesperadamente grande na evolução, ao combinar genes de vários hospedeiros.

O próprio Behe tem reconhecido que simplesmente o fato de os cientistas não poderem atualmente ver como um organismo "irredutivelmente complexo" evoluiu não prova que não existe nenhuma forma possível da evolução ter acontecido. Behe admitiu, no julgamento Dover, que não há nenhum trabalho revisado por pares que suporte suas alegações de que sistemas complexos, como o flagelo bacteriano, a cascata da coagulação sanguínea, e o sistema imune, foram resultado de Design Inteligente e não há nenhum artigo revisado por pares que apoie seu argumento de que certas estruturas moleculares complexas são "irredutivelmente complexas.". De fato, a teoria da evolução apresenta a exaptação como uma explicação reconhecida e bem documentada para o como os sistemas com múltiplas partes podem ter evoluído através de meios naturais. O professor Behe aplicou o conceito de complexidade irredutível somente a alguns poucos sistemas selecionados: (1) o flagelo das bactérias; (2) a cascata da coagulação sanguínea; e (3) o sistema imune. Contrário às asserções do professor Behe com respeito a estes poucos sistemas bioquímicos entre as miríades de sistemas existentes na natureza, entretanto, o Dr. Miller apresentou evidências, baseada em estudos que passaram por peer review, que eles não são de fato de complexidade irredutível. Além disso, mesmo se a complexidade irredutível não fosse rejeitada, ela ainda não apoiaria a mitologia do design já que ela é meramente um teste para a evolução, não para o design.

Cientistas criticaram suas metáforas simplistas, como a da ratoeira, dizendo: É esclarecedor comparar uma ratoeira com um gato, neste contexto. Os dois normalmente funcionam para controlar a população de ratos. O gato tem muitas partes que podem ser removidos deixando-o ainda funcional. Por exemplo, sua cauda pode ser encurtada, ou ele pode perder uma orelha em uma luta. Ao comparar o gato e a ratoeira pode-se ver que a ratoeira (que não é um ser vivo) apresenta melhor evidência, em termos de complexidade irredutível, de Design Inteligente, que o gato. Mesmo olhando a analogia da ratoeira, vários críticos demonstraram formas em que as partes da ratoeira poderiam ter usos independente ou poderiam ser desenvolvidas em estágios, demonstrando que ela não é irredutivelmente complexa.

Complexidade especificada

William Dembski, desenvolvedor do argumento da complexidade especificada, afirmava que quando alguma coisa exibia complexidade especificada (ou seja, complexo e "especificado", simultaneamente), poderíamos inferir que ela foi produzida por uma causa inteligente (ou seja, que foi projetada) ao invés de ser o resultado de processos naturais. Ele fornece os seguintes exemplos: "Uma única letra do alfabeto é especificada sem ser complexa. Uma sentença longa de letras aleatória é complexa sem ser especificada. Um soneto shakespeariano é tanto complexo quando especificado". Ele afirma que detalhes de seres vivos podem ser similarmente caracterizados, especialmente os "padrões" de seqüências moleculares em moléculas biológicas funcionais como o DNA. O conceito de complexidade especificada é amplamente considerado matematicamente frágil e até hoje não foi utilizado como base para trabalhos independentes posteriores, seja nas áreas da teoria da informação, teoria da complexidade, ou na biologia. Na literatura do design inteligente, um agente inteligente é um que escolhe entre possibilidades diferentes e que, por meios e métodos sobrenaturais, causou o surgimento da vida.

Os cálculos de William Dembski tentam mostrar que uma função suave simples não podem ganhar informação. Daí ele conclui que deve haver um projetista para obter complexidade especificada. Todavia, a seleção natural tem um mapeamento de ramificação de um para muitos (replicação) seguido de um mapeamento de poda dos muitos para poucos de novo (seleção). Quando a informação é replicada, algumas copias podem ser modificadas diferentemente enquanto outras continuam iguais, permitindo que a informação aumente. Estes mapeamentos de aumento e redução não foram modelados por William Dembski, os seus cálculos não modelam o nascimento e a morte. Esta falha básica em seu modelo torna todos os cálculos e raciocínios subsequentes de Dembski irrelevantes porque seu modelo básico não reflete a realidade. Dado que a base de seu argumento depende de um argumento falho, a tese inteira desmorona. O professor de matemática e biologia evolucionária de Harvard, Martin Nowak diz que: "nós não podemos calcular a probabilidade de um olho ter surgido porque nós não temos a informação para fazer o cálculo".

Isto é semelhante à observação de que é improvável que qualquer pessoa em particular ganhe na loteria, mas a loteria acaba sempre tendo um ganhador; argumentar que é muito improvável que qualquer um jogador ganhe não é o mesmo que provar que há a mesma chance de que ninguém ganhará. Do mesmo modo, argumentou-se que "um espaço de possibilidades está meramente sendo explorado, e nós, como animais que buscam por padrões, estamos meramente impondo padrões, e portanto alvos, após o fato.".

Em 1982, B.G. Hall publicou uma pesquisa: "Evolution of a regulated operon in the laboratory", Genetics, 101(3-4):335-44, demonstrando que após remover um gene que permite a digestão de açúcar em certas bactérias, essas bactérias, quando cultivadas em um meio rico em açúcar, rapidamente desenvolvem novas enzimas digestoras de açúcar para substituir as que foram removidas. Outro exemplo amplamente citado é a descoberta de bactérias que digerem nylon, que produzem enzimas úteis apenas para digerir materiais sintéticos que não existiam antes da invenção do nylon em 1935.

A New Scientist, uma revista sobre ciência de periodicidade, publicou um artigo "Evolutionary algorithms now surpass human designers" em 28 July 2007, comentando que a evolução por meio de seleção é frequentemente usada para projetar certos sistemas eletrônicos, aeronáuticos e automotivos que são considerados problemas complexos demais para "projetistas inteligentes" humanos. Isto contradiz o argumento de que um projetista inteligente é necessário para a maioria dos sistemas complexos. Tais técnicas evolucionárias podem levar a projetos que são difíceis de entender e avaliar já que nenhum humano entende que compromissos foram feitos no processo evolucionário, algo que imita o nosso pouco entendimento dos sistemas biológicos.

Universo afinado

Defensores do design inteligente ocasionalmente propõem argumentos fora do ramo da biologia, mais notavelmente um argumento baseado no conceito das "constantes universais bem afinadas", que tornam possíveis a existência da matéria e da vida, e portanto alegando que as constantes não devem ser solenemente atribuídas ao acaso (processos naturais). Essas incluem os valores das constantes físicas fundamentais, a força relativa das forças nucleares, o eletromagnetismo, a gravidade entre partículas fundamentais, também como as taxas das massas de tais partículas. Defensor do design inteligente e filiado do Centro para Ciência e Cultura, Guillermo Gonzales argumenta em "The Privileged Planet: How Our Place in the Cosmos is Designed for Discovery, 2004" que se qualquer um desses valores fosse até minimamente diferente, o universo seria dramaticamente diferente, tornando impossível a formação de muitos elementos químicos e de estruturas características do Universo, como galáxias. Logo, defensores argumentam, um designer inteligente da vida foi necessário para garantir que as características específicas se dessem presentes, caso contrário a vida seria, em termos práticos, impossível de ter existido. Porém, não levando em conta que tal falácia soa semelhantemente as mitologias politeistas de que havia uma divindade para cada situação do universo, Victor Stenger em "The Anthrophic Principle, Victor J. Stenger" e outros críticos afirmam que tanto o design inteligente quanto a forma fraca do princípio antrópico são essencialmente a mesma coisa; em sua opinião, esses argumentos se sustentam na alegação de que a vida é capaz de existir porque o universo é capaz de suportar vida. A alegação da improbabilidade de um universo que é capaz de suportar vida também foi criticada como sendo um argumento pela falta de imaginação por assumir que nenhuma outra forma de vida além da nossa é possível. A vida como conhecemos poderia não ter existido se as constantes fossem diferentes, mas uma forma de vida diferente poderia ter se formado no nosso lugar. No entanto, tal alegação, na mesma proporção da primeira, não possui uma única evidência e, de fato, todas as formas de vidas conhecidas são baseadas em carbono, tornando tal resposta pura especulação e, notadamente, "não falseável", daí não-científica.

Defensor do design inteligente, Granville Sewell afirmou em "'Evolution's Thermodynamic Failure', The American Spectator" que a evolução de formas complexas de vida representa uma diminuição da entropia, consequentemente violando a segunda lei da termodinâmica e apoiando o design inteligente. Isso, entretanto, foi comprovado em "Entropy, Disorder and Life TalkOrigins.org" como uma equivocação dos princípios da termodinâmica. A segunda lei da termodinâmica aplica-se a sistemas fechados somente. Se esse argumento fosse verdadeiro, seres vivos não conseguiriam crescer, já que isso também seria uma diminuição da entropia. Entretanto, como na evolução, o crescimento de seres vivos não viola a segunda lei da termodinâmica, porque seres vivos não são sistemas fechados - eles possuem uma fonte externa de energia (por exemplo, comida, oxigênio, luz do sol) cuja produção depende de um aumento liquido da entropia.

Criador inteligente

Argumentos a favor do design inteligente são formulados em termos seculares e intencionalmente evitam identificar o agente (ou agentes). Embora não afirmem que Deus seja o criador, o criador é frequentemente e implicitamente hipotetizado como tendo intervindo de uma maneira que somente um deus poderia intervir. Dembski, em "The Design Inference" (A Inferência do Design, Discovery Institute), especula que uma cultura alienígena poderia preencher os requisitos de um designer. A descrição autoritativa do design inteligente, entretanto, explicitamente afirma que o universo demonstra características de ter sido projetado. Reconhecendo o paradoxo, Dembski conclui em "The Act of Creation: Bridging Transcendence and Immanenceque" que "nenhum agente inteligente que é estritamente físico poderia ter presidido a origem do universo ou a origem da vida". Os principais defensores do design inteligente já fizeram declarações de que eles acreditam que o designer seja o Deus cristão. O próprio Dembski afirmou em "Touchstone Magazine. Volume 12, Issue4" que: "O design inteligente é apenas a teologia 'Logos' do Evangelho de João reafirmado na linguagem da teoria da informação".

Jerry Coyne, da Universidade de Chicago, pergunta em "The New Republic 233 (8/9): p. 21–33, titulo: The Case Against Intelligent Design" o por que um designer teria "nos dado os caminhos para a produção de vitamina C, mas então a destruído ao desativar uma de suas enzimas" e por que ele ou ela não iria "empilhar ilhas oceânicas com répteis, mamíferos, anfíbios e água fresca, apesar da adequação de tais ilhas para essas espécies". Coyne também aponta o fato da "flora e a fauna dessas ilhas lembram as da terra continental mais próxima, mesmo quando os ambientes são bem diferentes" como evidência de que espécies não foram colocadas lá por um designer. Coyne também descontraiu a resposta dizendo, à luz da evidência, que: "ou a vida resultou não de um design inteligente, mas da evolução; ou o designer inteligente é um brincalhão cósmico que projeta tudo para que o mesmo pareça ter evoluído". Richard Wein contra-argumenta em "Not a Free Lunch But a Box of Chocolates, 2002" que as perguntas não respondidas que uma teoria cria "precisam ser balanceadas contra o aperfeiçoamento de nosso entendimento do que a explicação fornece". Invocar um ser inexplicável para explicar a origem de outros seres (nós mesmos) não passa de petição de princípio. “A nova questão levantada pela explicação é tão problemática quanto a questão que a explicação pretende responder”. Na ausência de evidências observáveis e mensuráveis, a própria questão "Quem criou o criador?" leva a uma regressão infinita de onde defensores do design inteligente só podem escapar ao recorrer ao criacionismo religioso ou à contradição lógica.

A concepção de que deva haver um criador ou design inteligente para o universo mostra claramente que tais defensores cegamente se recusam a perceber todos os pontos negativos e imperfeitos do universo leva-se a conclusão de que não houve um criador ou projetista. Isto também indica que se houvesse um projetista ou um design universal não haveriam imperfeições e falta de "design" tão facilmente expostas pela ciência evolutiva como: embriologia comparada, órgãos homólogos, análogos e vestigiais, evidências genéticas e bioquímicas evolutivas, fósseis e espécies de transição.

Incorrendo no mesmo erro das religiões, o Design Inteligente não pode propor que seu projetista seja impessoal, se não seria o mesmo que dizer que não houve projetista, assim, tal design é claramente defendido como sendo um agente inteligente, um ser que projetou nosso universo. Isto entretanto faz de tal projetista, o que Coyne satíricamente propos, alguém mal, pois criou um universo caótico, contraditório, e injusto. Assim, o Design Inteligente é uma forma moderna do tradicional argumento teleológico para a existência de Deus, modificado para evitar especificações sobre a natureza ou identidade do criador, e portanto classificado como mitologia.